Café na Copa do Mundo: Como cada cultura torce com uma xícara diferente
Por: Daniel Rocha
Da Argentina ao Japão, cada país que disputa a Copa do Mundo 2026 tem uma relação única com o café. Descubra como o mundo se conecta em torno de uma xícara.
Cada seleção que entra em campo carrega consigo uma cultura de café tão rica quanto sua história no esporte. Algumas preferem o espresso curto e intenso. Outras apostam no filtrado lento e reflexivo. Há quem misture leite com cerimônia, e quem beba no copo, na cuia ou no coador de pano.
Neste artigo, fazemos uma volta ao mundo pelo café — seguindo os países que disputam ou acompanham de perto a Copa 2026. Prepare a sua xícara e vamos começar.
Brasil: o país onde o café acompanha todas as partidas
Antes de viajar pelo mundo, vale começar pelo país onde café e futebol fazem parte da rotina de milhões de pessoas.
No Brasil, a bebida está presente desde o café da manhã até as conversas após o almoço, passando pelas pausas do trabalho e pelos encontros entre amigos. Em dias de Copa do Mundo, não é diferente: muita gente acompanha os jogos com uma garrafa térmica por perto ou uma xícara recém-passada.
Embora o país tenha desenvolvido uma forte cultura de cafés especiais nos últimos anos, o tradicional café coado continua sendo o favorito dos brasileiros.
☕Bebida típica na Copa: O café acompanha o dia do torcedor brasileiro; a cerveja costuma acompanhar os 90 minutos.
Argentina — O País do Mate que descobriu o café especial
Quando se fala em Argentina, o mate domina a conversa. A cuia de erva-mate é quase um órgão vital do argentino — ela vai ao trabalho, ao estádio, à praia. Mas nas últimas décadas, Buenos Aires virou um dos polos de café especial mais vibrantes da América do Sul.
O cortado — espresso com um toque de leite vaporizado — é o pedido mais comum nas cafeterias portenhas. Não é um latte, não é um macchiato: é o cortado, e qualquer barista que confundir vai ouvir reclamação.
Bebida típica na Copa: Diversos torcedores e jogadores argentinos já foram fotografados consumindo mate durante as preparações para os jogos
Estados Unidos — De “café aguado” a potência da terceira onda
Os Estados Unidos já foram sinônimo de café fraco e sem graça — o famoso “drip coffee” dos filmes, servido em xícara de isopor nas postos de gasolina. Esse tempo ficou para trás. Hoje, o país é o epicentro do movimento de café de terceira onda, com cidades como Portland, Seattle, Nova York e Los Angeles abrigando algumas das melhores torrefações do mundo.
O cold brew — café extraído a frio por 12 a 24 horas — foi popularizado nos EUA e hoje é tendência global. Também são os americanos que mais investem em tecnologia de preparo, de Chemex a AeroPress.
☕ Bebida típica na Copa: Cold brew em copo alto, com gelo e, às vezes, leite de aveia.
Inglaterra — O País do Chá que virou Potência do café especial
A Inglaterra é sinônimo de chá — o five o’clock tea faz parte do imaginário britânico há séculos. Mas Londres silenciosamente se tornou uma das capitais mundiais do café especial. A cidade abriga dezenas de torrefações independentes e baristas de elite, muitos vindos da Austrália e da Nova Zelândia.
O flat white — espresso com leite vaporizado em proporção menor que o latte — foi adotado pela cultura britânica com entusiasmo. A Starbucks até colocou o flat white no menu global graças à pressão dos ingleses (e australianos).
☕ Bebida típica na Copa: Flat white bem feito, de preferência com grão de origem única.
Portugal — A bica que conquistou o mundo
Portugal tem uma das culturas de espresso mais intensas do mundo. A bica — como o espresso é chamado em Lisboa — é curta, forte, servida em xícara pequena e tomada rapidamente no balcão. O país toma mais espresso per capita do que muitos italianos e tem preços que ainda fazem inveja: um café por 80 centavos é normal.
O galão — espresso com muito leite vaporizado, servido em copo alto — é a versão portuguesa do latte, ideal para as manhãs lentas. E onde há café em Portugal, há pastel de nata — a combinação é quase sagrada.
☕ Bebida típica na Copa: Bica dupla antes do jogo. Galão no intervalo. Sem discussão.
Turquia — O Café como cerimônia e Patrimônio Cultural
O café turco é uma das formas de preparo mais antigas do mundo e foi reconhecido pela UNESCO como patrimônio cultural imaterial da humanidade. Preparado em um cezve (pequena jarra de cobre), o café é cozido lentamente com água fria, sem filtro, e servido com a borra no fundo da xícara.
Há toda uma tradição de leitura de borra — a tasseografia — onde o futuro é “visto” nos padrões deixados pelo café. É quase impossível tomar café turco sem pensar em rituais, em hospitalidade, em tempo. Nada a ver com a pressa do espresso italiano.
☕ Bebida típica na Copa: Café turco preparado com cerimônia, bebido devagar, sem adição de leite.
Japão — Onde o Café Filtrado Virou Arte
O Japão transformou o café filtrado em uma forma de arte. O V60 — o coador cônico que os baristas de todo o mundo usam — foi criado pela empresa japonesa Hario. Os kissaten, os cafés tradicionais japoneses, existem desde os anos 1960 e elevaram o pour over (café coado manualmente) a um nível quase meditativo.
No Japão, a atenção ao detalhe é levada ao extremo no café: temperatura da água controlada ao grau, peso do café medido ao grama, tempo de extração cronometrado ao segundo. O resultado é um café de clareza e complexidade incomparáveis. Tóquio tem algumas das melhores cafeterias do mundo — e silêncio absoluto dentro delas.
☕ Bebida típica na Copa: V60 de origem única, preparado com precisão cirúrgica e apreciado em silêncio.
Austrália — A Nação que Inventou o Flat White e Exportou Baristas
A Austrália tem uma das culturas de café mais sofisticadas do mundo — e reivindica (com certa rivalidade com a Nova Zelândia) a criação do flat white. Melbourne é frequentemente citada como uma das melhores cidades do mundo para café especial, com uma cena que rivaliza com Portland e Tóquio.
Os australianos exportaram seus baristas e sua cultura de café para o mundo inteiro — especialmente para Londres, onde a “invasão australiana” transformou a cena local. No café australiano, qualidade é inegociável. Grandes redes de café raramente sobrevivem; o independente artesanal domina.
☕ Bebida típica na Copa: Flat white perfeito, com latte art impecável e grão rastreável.
Outras bebidas que também fazem parte da Copa
Nem todos os países possuem uma única bebida símbolo. Em muitos casos, diferentes tradições convivem lado a lado.
- México: águas frescas feitas com frutas, hibisco ou tamarindo.
- Canadá: café e chocolate quente seguem entre os favoritos.
- França: vinho e café dividem espaço na cultura local.
- Holanda: tradição tanto no café quanto nas cervejas artesanais.
- Áustria: os históricos cafés vienenses fazem parte da identidade do país.
- Arábia Saudita: o café árabe, preparado com especiarias, é símbolo de hospitalidade.
Uma Copa, Treze Xícaras, Uma Paixão em Comum
O futebol une países que dificilmente concordariam em qualquer outra coisa. O café também. De formas completamente diferentes — na cuia argentina, no cezve turco, no V60 japonês, na bica portuguesa — cada cultura encontrou no café um momento de pausa, de encontro, de ritual.
Durante a Copa do Mundo 2026, enquanto os gols decidem o vencedor em campo, o café decide o tom de cada torcida fora dele. E nesse campeonato paralelo, cada país já tem seu estilo — e todos merecem o pódio.
Qual dessas culturas de café mais combina com o seu jeito de torcer?
Leia também no Alma do Café
- Copa do Mundo 2026: como cada seleção toma café
- Café Especial para Iniciantes: por onde começar
- Métodos de preparo: qual o ideal para o seu paladar?
- Cold Brew: o guia completo para fazer em casa
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Daniel Rocha
Engenheiro, mineiro e ciclista, encontrou no café uma nova rota de exploração. Une precisão técnica e sensibilidade para desvendar os segredos de cada grão — porque uma boa xícara, assim como um bom pedal, é feita de detalhes.
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